Encontrar um namorado é uma equação difícil que mistura sentimento e matemática. Fizemos as contas para você
Os números comprovam: há futuros amores bem soltinhos por aí. Mas onde?
"Papai do Céu, me dá um namorado. Lindo, fiel, gentil e tarado!" Essa "prece" é de uma música cantada por Rita Lee no disco Flerte Fatal. A canção de 1987 ainda faz sentido hoje. Muitas mulheres querem namorar e não conseguem encontrar um cara disponível. Parece até que está faltando homem no mercado. Ou, quem sabe, as exigências femininas é que estão altas demais e não contribuem para concretizar esse desejo do coração?
A resolução do caso pode ser matemática. Para saber se existe ou não homem livre para compromisso sério, pegamos a calculadora para fazer as contas considerando a população masculina brasileira entre 20 e 34 anos com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2009). Escolhemos essa idade porque as estatísticas mostram que eles trocam alianças pela primeira vez, em média, com mulheres três anos mais novas. Nessa equação, vemos que "elas" se casam mais cedo. Portanto, apesar de existirem mais mulheres no geral,sobram homens disponíveis.
Descontos e desencontros
É preciso pegar leve aqui. Nem todos os caras oficialmente disponíveis (não sacados) são de fato livres. É necessário subtrair alguns nessas estatísticas amorosa. Os religiosos celibatários, por exemplo, devem ser descontados nesse número, pois não vieram ao mundo para namorar. Porém, somando padres, bispos, diáconos (aspirantes a padre), monges budistas de várias linhagens e Hare Krishnas da ordem Sannyasa, não dá o número de freiras católicas atual (mais de 33 mil). Ok, esse "descontinho" é tão pequeno em uma realidade de milhões que foi quase um preciosismo de nossa parte. Já a quantidade de homens com relacionamento estável - não casados no papel - é realmente significativa. No país, segundo o IBGE, são mais de 7,5 milhões de casais de todas as idades "morando junto". Esse número apesar de elevado, não assusta. Considerando que cada homem mora com apenas uma mulher, tudo bem - menos um solteiro de cá, menos uma solteira de lá.
Outro argumento muito repetido para explicar a possível escassez masculina é que teria aumentado a quantidade de gays. Roni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), explica que nos últimos anos cresceu foi o número de caras que se sentem seguros para assumir a homossexualidade. "isso é bom para as mulheres. Eu não ia querer namorar alguém que não gostasse mesmo de mim", diz ele. A estimativa mais aceita é que 10% da população seja homossexual _ entre homens e mulheres. Até aqui, as baixas entre os sexos se equilibram. Lembrando que, desde o início da equação, sobrava quase 1,5 milhão de homens disponíveis.
A falta "psicológica"
Bom, os números dizem uma coisa, mas a sensação que a assessora comercial Kênya Tavares, 27 anos, tem quando sai é bem outra. " Vejo mais mulheres paquerando. A balada está parecendo guerra, uma disputa para ver quem se joga mais", desabafa ela, que teve só um namorico rápido nos últimos dois anos e meio. Essa impressão de Kênya - e muitas outras - tem de que existe uma diferença significativa entre a quantidade de homens e a de mulheres se deve ao fato de eles circularem menos, como explica Luiz Cuschnir, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos de Identidade do Homem e da Mulher. "Elas têm uma disposição maior para socializar do que eles", complementa.
A verdade é que não faltam homens em número, mas aquele "carinhoso e com conteúdo" que Kênya tanto quer pode não estar nos lugares que ela freqüenta. "Arrumar namorado está igual a arrumar emprego: só por indicação. Uma amiga sua começa a namorar. O namorado dela aposta os amigos solteiros. E ela, que já conhece seu perfil, vê qual poderia combinar e apresenta", ela diz. E por que a própria ainda não foi ajudada por uma coleguinha comprometida? "São tantas solteiras e tão poucas namorando que haja indicação!"
A professora de literatura Camila Reis, 27, também sabe que na noite não encontrará alguém para namorar. Já até "perdeu o ânimo" de ir à caça. "Os homens interessantes ou estão namorando ou acabaram de sair de um namoro e querem aproveitar." Essa conclusão, por mais desastrosa que possa parecer, tem fundamento. Segundo Luiz Cuschnir, eles "tendem a ficar mais tempo refratários quando um relacionamento não dá certo."
Um príncipe, por favor
E por que tantas mulheres dizem que os tais " homens interessantes" são raros? A dona da agência A2Encontros, Claudya Toledo, auto intitulada "a maior cupido do Brasil", se queira de que muitas procuras seus serviços em busca de um príncipe encantado ou algo bem próximo dele. Segundo ela, o homem que a mulher quer pode não existir ou pode estar disponível e não se sentir atraído por aquela mulher. " Algumas querem um que seja ambicioso profissionalmente e carinhoso. Porém, esse cara muito focado na carreira pode ter pouco tempo para investir em uma relação", alerta. É claro que nem toda mulher a perigo peca por excesso de idealização. A fisioterapeuta Aline Negrino, 27, há quatro anos "solteira, mas não sozinha", tem seus pré-requisitos. Ela decidiu: só vai namorar se isso for acrescentar-lhe alguma coisa. "Quero alguém com a mesma perspectiva de futuro que eu. Acho que essa é uma cobrança meio natural, não?"
As super poderosas
Esse maior nível de exigência nas escolhas amorosas naturalmente tem relação com o maior investimento que as mulheres fizeram nelas mesmas. " Os homens não acompanharam as mudanças femininas. As mulheres ficaram muito mais interessantes", afirma a psicoterapeuta Lúcia Rosenberg. Elas hoje estudam mais do que eles e ocupam cargos antes não ocupados. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2008 as mulheres já apresentavam 60% das pessoas que se formavam em curso superior. Luiz Cuschnir pondera que as mudanças de comportamento foram enormes, mas que os padrões emocionais na relação do casal pouco se alteram. "As mulheres ainda esperam proteção e segurança do homem." E, se essa necessidade se converter em um anseio de encontrar um parceiro com mais escolaridade, salário maior, mais experiência de vida, caímos novamente em um problema estatístico. Quanto mais "poderosas" elas ficam, mais difícil será achar alguém em seu "nível" ou acima dele. "Simbolicamente, falta homem, sim. Falta homem capaz de acompanhar a liberação feminina", admite Cuschnir. Da nossa parte, talvez seja hora de relativizar alguns critérios - só alguns, viu? - para um futuro bem acompanhadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário